segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Irreversível

- Isso acontece! Falou o segurança do cemitério, enquanto ela passava por ele, sem ousar olhá-lo, um momento sequer. Só conseguia continuar pedalando sua bicicleta, len-ta-men-te. Tentativa -inútil- de parar o tempo. Parecia-lhe que o mundo girava acelerado demais, como se ela estivesse a beira de uma estrada, vendo carros passarem por ela a 300 por hora. VRUM! VRUM!...VRUM!
Na confusão de sua mente, uma imagem permanecia, imóvel, sádica: o avô estendido em seu colo, se esvaindo.
- Vô, aguenta firme! A gente já vai chegar! Vô, não desista! Respira! RESPIRA! NÃO! Não!...
Tarde demais. O carro continuava acelerado, mas ela sabia que tudo ali dentro havia parado.
- Parada cardíaca irreversível. Falou um médico há cerca de um ano sobre seu pai. E ali estava ela novamente com seu avô em seu colo. Irreversível! Mas ela continuava tentando achar alguma artéria que pulsasse em alguma parte daquele corpinho já tão sem vida. Chegou a pensar ter visto uma incursão respiratória. Como os nossos sentidos nos iludem quando a vontade é grande!
Ela pedalou por horas dentro daquele cemitério. Ela sabia que era o único lugar da cidade onde ficaria completamente só. Tudo o que queria naquele momento era a solidão, para se acalmar, organizar os pensamentos e, quem sabe, diminuir o sentimento de impotência. Desejava saber menos a respeito do corpo humano, para que a tortura íntima fosse menor; ao mesmo tempo desejava saber mais, para que pudesse ter evitado, agido mais rápido, ou não ter se precipitado. Tudo isso para evitar o inevitável.
 Respostas urgiam! Precisava desvendar todos os mistérios da vida, da morte, de si mesma, naquele momento. E a sua vocação? Tantos anos de estudo...Que voz é essa que nos chama a uma determinada direção? Já não conseguia mais perceber a direção.
Ela parou e olhou tudo a seu redor. Percebeu que tudo continuava em seu ritmo habitual. O mundo acelerado estava ALI dentro. Sua alma queria correr a 300 por hora. Vrum...
Resolveu voltar pros seus e pedalou na direção da saída, quando percebeu que o vigia a estava observando há algum tempo.
- Você está bem?
- Tô.
- Tá precisando de ajuda?
- É que meu avô morreu hoje e ... queria dar um tempo e ...
Ela desistiu de continuar. Não queria conversar, apenas continuou pedalando, sem olhar pra ele.
- Isso acontece. Ele disse, com ar preocupado.
- É. Acontece... repetiu mecanicamente sem parar o movimento dos pedais.
De súbito, sentiu calor naquela atitude inesperada. Um estranho. Ele deveria estar acostumado a ver gente entrando e saindo dali aos prantos, mas não. Não perdera a capacidade de perceber.
Ela parou. Olhou para trás e disse:
- Obrigada!
-Se quiser conversar...
-Tudo bem...mesmo assim, Obrigada!
Continuou pedalando...

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