domingo, 25 de setembro de 2011

Instantes

Foto extraida do Blog Olhares
   

    O cotidiano tem lá dessas coisas surpreendentes. É um paradoxo. Sempre tivemos uma relação paradoxal – o cotidiano e eu. Chego a odiá-lo quando ele me diz certas bobagens. Quando ele insiste em se definir como um “fazer as mesmas tarefas da mesma maneira, nos mesmos horários... ler o mesmo jornal com o mesmo olhar, olhar a mesma cara sem graça no espelho e parar de fazê-lo pelo mesmo motivo: Apatia. Algumas palavras trazem em si o peso da semgracisse. Apatia é assim. Basta deixar a mandíbula pender no A, fechar um pouquinho – quase sem esforço – e tornar a pender no PA, fazer um biquinho xôxo no TI e terminar com a mandíbula solta e entregue no A...Ahhh!! Que asfixia! O nada, esse vazio de vida tira o ar. Melhor é perdê-lo por uma paixão, por uma alegria inesperada, por um toque, por uma música que te faz vibrar todas as moléculas, por uma emoção que seja. Sabe do que estou falando, não sabe?..Alguém já escreveu em algum lugar, em alguma época que “A única perfeição é a alegria”.  Essa é a perfeição que se vê nos olhos de quem suplantou esse tenebroso transcorrer dos dias, pleno de uma morte lenta e gradual, de uma morte dos sentidos, do sentir.
    Não me posso furtar a dizer, entretanto, que o paradoxo deste cotidiano é a melhor idéia que encontro para definir tudo o que possamos chamar “VIDA”. Isto significa que existe um calor a mais em momentos fugidios de cada segundo do passar do tempo, em instantes aparentemente banais, que a apatia pintaria de cinza, mas que um olhar algo interessado enche de cor e dança.
    Hoje, domingo nublado, entre brincadeiras e estudo, pois a irmã caçula tem prova de português essa semana, deparei-me com um texto de “Cartas Perto do Coração” ( Clarice Lispector e Fernando Sabino): “(...)Por hora preciso que você me escreva, preciso que você me mande noticias suas, que você diga que não ficou chateada comigo por causa do meu silencio e conte bastante coisas daí para que eu saiba afinal se você continua vivendo, se continuamos vivendo, porque viver é de graça, de favor, ninguém pediu licença para nascer nem pagou entrada no mundo, e já que não temos a quem agradecer tanta gentileza, agradeçamos mutuamente. Muito obrigado, Clarice.”
Silêncio...Agradeço a esse instante, então; ao meu ingresso no mundo; ao ingresso de algumas pessoas na minha vida; à saída daquelas que não fizeram diferença; ao regresso das que deixaram saudade...por enxergar o avesso do cotidiano.  Muito obrigada!

2 comentários:

  1. Textos que conduzem suavemente à reflexão, por vezes, nem tão suave,mas redentora.

    Beijo grande e parabéns!

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