Uma coisa que sempre me chamou atenção é o olhar da criança. Muitas vezes ao longo da minha vida adulta, flagrei esse par de esferas me scanneando. Ou melhor, fui flagrada por ele. O verbo fica na voz passiva, porque nós – adultos – também ficamos passivos diante desta súbita invasão. Nós sofremos a ação de ser despidos em público; ela é o agente da ação de simples e verdadeiramente nos VER. É que a criança não desvia os olhos quando é percebida percebendo o mundo, as coisas, as pessoas... Para ela não há medo, vergonha de ser sabida com o curioso olhar ali...Vasculhando tudo. Aos feixes que saem daqueles scanners não importa se restará suspeita, vestígio. O único foco é o interesse em enxergar. O que assusta os míopes, astigmáticos, hipermetrópicos da alma...Adultos, enfim. Não estamos acostumados a enxergar o outro, a ter/mostrar esse interesse desinteressado pelo que diz respeito a todos, a tudo o que nos cerca.
Gostaria de me incluir fora deste “nós” – quase sempre, acho até que poderia - mas não me vejo totalmente despida das tantas defesas e carapaças que estupidamente criamos, à medida que deixamos para trás essa lúcida e, sobretudo, lúdica fase de nossa vida.
Qualquer pessoa, um pouquinho conectada que seja, percebe que a busca por esvaziadores de mente vem aumentando a cada dia. Peraí! “Esvaziadores”? Lá vai o adulto no pai dos burros constatar que esvaziador não existe. Como não existe? E as inúmeras modalidades de yoga, tai chi chuan, shiatsu, meditação transcendental, terapia do riso...Terapia do riso? Nós sabíamos fazer isso tão bem, tão entregues! Agora precisamos reaprender a rir? Precisamos...aprender a ESVAZIAR as DORES – esse amontoado de tralhas e quinquilharias que, triste e inconscientemente, um desavisado carrega por toda uma vida. Peso inútil que asfixia, oprime o tórax e encarcera aquela gargalhada espontânea e gostosa por uma “bobagem”qualquer...que cala a voz quando não encontramos uma palavra para exprimir certa idéia, em vez darmos asas à criatividez e dizermos: “o dia já vai esclarecer”, “vou no fazedeiro de pipocas e já volto”; “você é muito mentirudo!”
Então, caro adulto, na próxima vez que for flagrado pelo olhar de uma criança – ainda que esses feixes scanneadeiros venham do espelho – permita-se desnudar, entregue-se, SORRIA! Você está sendo visto! De verdade!

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