domingo, 14 de junho de 2015

Moramos em Nós

Como se fôssemos comuns
Me interpreta mal
Não lê as entrelinhas
O furta-cor fica cinza
E o raro, banal

Como se fôssemos ordinários
Minha beleza aos teus olhos se esvai
Tudo é desacerto, desencontro
O silêncio pesa, adormece
O entusiasmo, os nossos sonhos

Como se fôssemos solitários
Moramos juntos, mas
Eu moro em mim
Tu moras em ti
E a indiferença, o corolário

Como se fôssemos dissonantes
Torna-se "somos" de fato
Mudez, ruido
Desarmonia, descompasso
O que era encanto, lugar comum
E o que era flor, solo árido.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Irreversível

- Isso acontece! Falou o segurança do cemitério, enquanto ela passava por ele, sem ousar olhá-lo, um momento sequer. Só conseguia continuar pedalando sua bicicleta, len-ta-men-te. Tentativa -inútil- de parar o tempo. Parecia-lhe que o mundo girava acelerado demais, como se ela estivesse a beira de uma estrada, vendo carros passarem por ela a 300 por hora. VRUM! VRUM!...VRUM!
Na confusão de sua mente, uma imagem permanecia, imóvel, sádica: o avô estendido em seu colo, se esvaindo.
- Vô, aguenta firme! A gente já vai chegar! Vô, não desista! Respira! RESPIRA! NÃO! Não!...
Tarde demais. O carro continuava acelerado, mas ela sabia que tudo ali dentro havia parado.
- Parada cardíaca irreversível. Falou um médico há cerca de um ano sobre seu pai. E ali estava ela novamente com seu avô em seu colo. Irreversível! Mas ela continuava tentando achar alguma artéria que pulsasse em alguma parte daquele corpinho já tão sem vida. Chegou a pensar ter visto uma incursão respiratória. Como os nossos sentidos nos iludem quando a vontade é grande!
Ela pedalou por horas dentro daquele cemitério. Ela sabia que era o único lugar da cidade onde ficaria completamente só. Tudo o que queria naquele momento era a solidão, para se acalmar, organizar os pensamentos e, quem sabe, diminuir o sentimento de impotência. Desejava saber menos a respeito do corpo humano, para que a tortura íntima fosse menor; ao mesmo tempo desejava saber mais, para que pudesse ter evitado, agido mais rápido, ou não ter se precipitado. Tudo isso para evitar o inevitável.
 Respostas urgiam! Precisava desvendar todos os mistérios da vida, da morte, de si mesma, naquele momento. E a sua vocação? Tantos anos de estudo...Que voz é essa que nos chama a uma determinada direção? Já não conseguia mais perceber a direção.
Ela parou e olhou tudo a seu redor. Percebeu que tudo continuava em seu ritmo habitual. O mundo acelerado estava ALI dentro. Sua alma queria correr a 300 por hora. Vrum...
Resolveu voltar pros seus e pedalou na direção da saída, quando percebeu que o vigia a estava observando há algum tempo.
- Você está bem?
- Tô.
- Tá precisando de ajuda?
- É que meu avô morreu hoje e ... queria dar um tempo e ...
Ela desistiu de continuar. Não queria conversar, apenas continuou pedalando, sem olhar pra ele.
- Isso acontece. Ele disse, com ar preocupado.
- É. Acontece... repetiu mecanicamente sem parar o movimento dos pedais.
De súbito, sentiu calor naquela atitude inesperada. Um estranho. Ele deveria estar acostumado a ver gente entrando e saindo dali aos prantos, mas não. Não perdera a capacidade de perceber.
Ela parou. Olhou para trás e disse:
- Obrigada!
-Se quiser conversar...
-Tudo bem...mesmo assim, Obrigada!
Continuou pedalando...

domingo, 25 de setembro de 2011

Instantes

Foto extraida do Blog Olhares
   

    O cotidiano tem lá dessas coisas surpreendentes. É um paradoxo. Sempre tivemos uma relação paradoxal – o cotidiano e eu. Chego a odiá-lo quando ele me diz certas bobagens. Quando ele insiste em se definir como um “fazer as mesmas tarefas da mesma maneira, nos mesmos horários... ler o mesmo jornal com o mesmo olhar, olhar a mesma cara sem graça no espelho e parar de fazê-lo pelo mesmo motivo: Apatia. Algumas palavras trazem em si o peso da semgracisse. Apatia é assim. Basta deixar a mandíbula pender no A, fechar um pouquinho – quase sem esforço – e tornar a pender no PA, fazer um biquinho xôxo no TI e terminar com a mandíbula solta e entregue no A...Ahhh!! Que asfixia! O nada, esse vazio de vida tira o ar. Melhor é perdê-lo por uma paixão, por uma alegria inesperada, por um toque, por uma música que te faz vibrar todas as moléculas, por uma emoção que seja. Sabe do que estou falando, não sabe?..Alguém já escreveu em algum lugar, em alguma época que “A única perfeição é a alegria”.  Essa é a perfeição que se vê nos olhos de quem suplantou esse tenebroso transcorrer dos dias, pleno de uma morte lenta e gradual, de uma morte dos sentidos, do sentir.
    Não me posso furtar a dizer, entretanto, que o paradoxo deste cotidiano é a melhor idéia que encontro para definir tudo o que possamos chamar “VIDA”. Isto significa que existe um calor a mais em momentos fugidios de cada segundo do passar do tempo, em instantes aparentemente banais, que a apatia pintaria de cinza, mas que um olhar algo interessado enche de cor e dança.
    Hoje, domingo nublado, entre brincadeiras e estudo, pois a irmã caçula tem prova de português essa semana, deparei-me com um texto de “Cartas Perto do Coração” ( Clarice Lispector e Fernando Sabino): “(...)Por hora preciso que você me escreva, preciso que você me mande noticias suas, que você diga que não ficou chateada comigo por causa do meu silencio e conte bastante coisas daí para que eu saiba afinal se você continua vivendo, se continuamos vivendo, porque viver é de graça, de favor, ninguém pediu licença para nascer nem pagou entrada no mundo, e já que não temos a quem agradecer tanta gentileza, agradeçamos mutuamente. Muito obrigado, Clarice.”
Silêncio...Agradeço a esse instante, então; ao meu ingresso no mundo; ao ingresso de algumas pessoas na minha vida; à saída daquelas que não fizeram diferença; ao regresso das que deixaram saudade...por enxergar o avesso do cotidiano.  Muito obrigada!

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Um olhar interessado

   

    Uma coisa que sempre me chamou atenção é o olhar da criança. Muitas vezes ao longo da minha vida adulta, flagrei esse par de esferas me scanneando. Ou melhor, fui flagrada por ele. O verbo fica na voz passiva, porque nós – adultos – também ficamos passivos diante desta súbita invasão. Nós sofremos a ação de ser despidos em público; ela é o agente da ação de simples e verdadeiramente nos VER. É que a criança não desvia os olhos quando é percebida percebendo o mundo, as coisas, as pessoas... Para ela não há medo, vergonha de ser sabida com o curioso olhar ali...Vasculhando tudo. Aos feixes que saem daqueles scanners não importa se restará suspeita, vestígio. O único foco é o interesse em enxergar. O que assusta os míopes, astigmáticos, hipermetrópicos da alma...Adultos, enfim. Não estamos acostumados a enxergar o outro, a ter/mostrar esse interesse desinteressado pelo que diz respeito a todos, a tudo o que nos cerca.
    Gostaria de me incluir fora deste “nós” –  quase sempre, acho até que poderia - mas não me vejo totalmente despida das tantas defesas e carapaças que estupidamente criamos, à medida que deixamos para trás essa lúcida e, sobretudo, lúdica fase de nossa vida.    
    Qualquer pessoa, um pouquinho conectada que seja, percebe que a busca por esvaziadores de mente vem aumentando a cada dia. Peraí! “Esvaziadores”? Lá vai o adulto no pai dos burros constatar que esvaziador não existe. Como não existe? E as inúmeras modalidades de yoga, tai chi chuan, shiatsu, meditação transcendental, terapia do riso...Terapia do riso? Nós sabíamos fazer isso tão bem, tão entregues! Agora precisamos reaprender a rir? Precisamos...aprender a ESVAZIAR as DORES – esse amontoado de tralhas e quinquilharias que, triste e inconscientemente, um desavisado carrega por toda uma vida. Peso inútil que asfixia, oprime o tórax e encarcera aquela gargalhada espontânea e gostosa por uma “bobagem”qualquer...que cala a voz quando não encontramos uma palavra para exprimir certa idéia, em vez darmos asas à criatividez e dizermos: “o dia já vai esclarecer”, “vou no fazedeiro de pipocas e já volto”; “você é muito mentirudo!”
    Então, caro adulto, na próxima vez que for flagrado pelo olhar de uma criança – ainda que esses feixes scanneadeiros venham do espelho –  permita-se desnudar, entregue-se, SORRIA! Você está sendo visto! De verdade!

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Conversa com o algoz inconsciente

Perdoo-te...
Por teres te cegado e sequer percebido
Por teres apenas pensado em ti
E de mim...de mim se esquecido.
Por teres feito quase tudo errado!
É que esse “QUASE” me tem protegido

Por me julgares mais forte do que eu seria
Por esse desencontro que tu nem avalias
Por uma estupidez que eu jamais cometeria
Jamais cometeria! Jamais cometeria?
Porque há mais em mim de ti do que eu sabia

Quanta hipocrisia num julgamento jaz
Pois há sempre um juiz mais alto e capaz
De censurar um erro estúpido, contumaz
Afinal, o que há em mim de ti é o que me faz
Como você, humana...humana demais!

Então, perdoo-te!
Simplesmente porque me perdôo todos os dias...

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Um dia meio Matilde

                                     
Sabe aquele dia que você se sente a mãe do mundo? Hoje, a caminho da academia, estava eu pensando como a vida tem sido boa pra mim...Sentia-me satisfeita por pequenas alegrias do cotidiano: voltei pra casa depois de 15 dias viajando, cuidei das plantas (Maria e Rubbia), fiz um de meus pratos favoritos no almoço, tomei uma taça de vinho, conversei com amigos, cumprimentei os vizinhos, ouvi musica, li, dancei... Quando estava a caminho da malhação, um mendigo, surgido do nada, me aborda: “ Moça, paga um lanche pra mim!” Resposta automática: “Não dá. Não tenho.” Meus passos seguintes pareciam pesar 20 quilos a mais. Sem pieguice, porque já fiz isso outras tantas vezes e não me senti TÃO mal. Se bem que...Todas as vezes eu me sinto meio culpada de ter , de simplesmente ter... Caixinhas decoradas, abajur, paredes, quadros nas paredes, chaves de casa na bolsa, bolsa com documentos, cartões de crédito, cheiro de perfume na pele...Mas a gente segue adiante e depois esquece, esquece mesmo e a tal da culpa passa, porque não dá pra segurar todas as mãos estendidas, até porque nunca se sabe se essa mão suplicante vai revidar todos os “nãos” que recebeu da vida.  Só que desta vez foi diferente! Essa mesma culpa que depois se esquece, marejou meus olhos...O pedinte era um senhor de cabelos brancos, olhar alucinado, fala desconexa...Desconexa foi minha atitude de passar por ele saltitante, com roupa de malhação, tênis de marca e dizer: “Não. Não tenho.”Que farsa! É horrível se perceber uma farsa! Virei meu corpo e vi que ele continuava na rua, feito uma criança que vai de adulto em adulto, pedindo atenção...E as pessoas indiferentes, como eu. Desta vez quebrei a barreira do medo, do “depois passa” e voltei lá. Entrei na padaria em frente e comprei o lanche. Aproximei-me e disse meio tímida, meio apreensiva – porque ele parecia meio louco: “Moço, trouxe o lanche que o senhor pediu”. Entreguei o pacotinho. Ele pegou. Silêncio. Tudo em suspenso. Eu dando uns meio-passos pra trás. Ele diz: “Matilde, é você? Obrigado, Matilde! Matilde?" A essa altura, meus meio-passos tornaram-se passos inteiros e fui me despedindo e fiquei assim com essa meio-imagem da Matilde e essa sensação de farsa que assim... meio passou.