quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Um dia meio Matilde

                                     
Sabe aquele dia que você se sente a mãe do mundo? Hoje, a caminho da academia, estava eu pensando como a vida tem sido boa pra mim...Sentia-me satisfeita por pequenas alegrias do cotidiano: voltei pra casa depois de 15 dias viajando, cuidei das plantas (Maria e Rubbia), fiz um de meus pratos favoritos no almoço, tomei uma taça de vinho, conversei com amigos, cumprimentei os vizinhos, ouvi musica, li, dancei... Quando estava a caminho da malhação, um mendigo, surgido do nada, me aborda: “ Moça, paga um lanche pra mim!” Resposta automática: “Não dá. Não tenho.” Meus passos seguintes pareciam pesar 20 quilos a mais. Sem pieguice, porque já fiz isso outras tantas vezes e não me senti TÃO mal. Se bem que...Todas as vezes eu me sinto meio culpada de ter , de simplesmente ter... Caixinhas decoradas, abajur, paredes, quadros nas paredes, chaves de casa na bolsa, bolsa com documentos, cartões de crédito, cheiro de perfume na pele...Mas a gente segue adiante e depois esquece, esquece mesmo e a tal da culpa passa, porque não dá pra segurar todas as mãos estendidas, até porque nunca se sabe se essa mão suplicante vai revidar todos os “nãos” que recebeu da vida.  Só que desta vez foi diferente! Essa mesma culpa que depois se esquece, marejou meus olhos...O pedinte era um senhor de cabelos brancos, olhar alucinado, fala desconexa...Desconexa foi minha atitude de passar por ele saltitante, com roupa de malhação, tênis de marca e dizer: “Não. Não tenho.”Que farsa! É horrível se perceber uma farsa! Virei meu corpo e vi que ele continuava na rua, feito uma criança que vai de adulto em adulto, pedindo atenção...E as pessoas indiferentes, como eu. Desta vez quebrei a barreira do medo, do “depois passa” e voltei lá. Entrei na padaria em frente e comprei o lanche. Aproximei-me e disse meio tímida, meio apreensiva – porque ele parecia meio louco: “Moço, trouxe o lanche que o senhor pediu”. Entreguei o pacotinho. Ele pegou. Silêncio. Tudo em suspenso. Eu dando uns meio-passos pra trás. Ele diz: “Matilde, é você? Obrigado, Matilde! Matilde?" A essa altura, meus meio-passos tornaram-se passos inteiros e fui me despedindo e fiquei assim com essa meio-imagem da Matilde e essa sensação de farsa que assim... meio passou.

Nenhum comentário:

Postar um comentário